quarta-feira, 31 de março de 2010

O PAI PRÓDIGO DE AMOR


Jesus contou uma parábola registrada no evangelho de Lucas que trata da saga de um pai que é pródigo de amor e bondade. Ele conta que um pai vive a experiência de receber um de seus filhos para uma prestação de contas. O filho mais novo lhe pede a parte que lhe cabe da herança, dizendo que vai embora, e, se a herança seria dele mesmo, não havia motivo para esperar até que seu pai se fosse, afinal ele estava precisando daquela herança era naquele momento.
O que se espera é que o velho pai usasse de sua posição de autoridade para dizer não àquele filho insolente. Mas ele surpreende consentindo e lhe dando a parte que lhe cabia da herança.

Uma fala atribuída a Voltaire (1694-1778) diz: “Não concordo com uma palavra do que dizes, mas defenderei até a morte o teu direito de dizê-las”. Uso essa colocação para dizer que há um monte de gente, que independente da gente, pensa e reage de forma bem diferente de tudo aquilo que poderia pensar, dizer, agir, reagir. Em outras palavras ou a gente cria uma margem de possibilidades de surpresas ou vai precisar se aprontar para sofrer muito, porque os filhos, cônjuges, pais, amigos, clientes, pacientes surpreendem positiva ou negativamente.

O filho realmente foi embora para um lugar distante. Lá desperdiçou toda a sua herança vivendo irresponsavelmente. Ele acabou experimentando o sentimento da perda, não somente de seus bens, mas das pessoas que estavam sempre com ele. Ele percebe que as facilidades não são chaves perenes. Nesse tempo, o garoto além de experimentar a fome, coisa impensável para ele, se ver obrigado a mudar de ramo. Ele, que já havia sido fazendeiro, agora tinha que lidar com porcos, não como dono, mas como cuidador.
Numa hora de cesta, depois de se obrigar a partilhar da comida dos porcos, um momento de reflexão acontece na sua mente, e ele trás à memória sua vida na casa do pai e decide retornar pedindo perdão a seu pai. Foi aquele sentimento de mea culpa! Ele percebe que tudo foi uma precipitação, e agora estava arcando com as consequências. Assim como esse garoto, dificilmente não se paga caro uma precipitação.
O fato é que ele se lembra da casa do pai; e nesse instante, o que vem ao coração do garoto não foi a cama quentinha com lençóis limpos ou a riqueza do pai. Não tinha a ver com coisas, tinha a ver com gente. Era seu relacionamento com o pai que lhe fazia mais falta. Sua argumentação foi de relacionamento, não de funcionalidade.

Foi o seu tempo de descobrir que bons relacionamentos não devem ser capitulados, mas nutridos durante toda a vida.
Procurem se lembrar das coisas que aconteceram em períodos passados que representaram uma vida. Nesse período se construiu uma história que não devia ser capitulada. Esses casos devem ser adubados com encontros, telefonemas, e-mails, fotos em painéis, etc., nunca capitulados de forma insensível.

Quando o garoto volta pra casa, encontra seu velho pai de braços abertos e cheio de amor, o que nem lhe deixa tempo para explicações demoradas. Aquela casa estaria em festa. O perdão estava no ar.

Seu irmão não estava em casa, mas logo chegaria. Não chegou. Seu pai vai a seu encontro e descobre que ele não deseja participar da festa de seu irmão. Outra surpresa para o velho pai. Agora, quem surpreende é o filho mais velho.
“Ora”, diz o filho chateado, “desse jeito o senhor está valorizando a atitude irresponsável do garoto!”.
O coração do pai sofre esse evento descobrindo que quando seus filhos vieram a sua presença, um filho vai embora e o outro fica. Ambos pareciam resolvidos. Agora descobre que o filho que ficara em casa, apesar de ser valente no exercício do trabalho, era covarde em relação a tomada de decisões. O filho que voltou acabou conhecendo o coração bondoso de seu pai, enquanto seu irmão, não tinha saído de casa, ou deixado seu pai sozinho, mas ele, o filho mais velho não ficou resolvido. Havia permanecido todo o tempo com essa pendência mal resolvida. Conhecia todo o serviço da casa, mas não conhecia o coração de seu pai. Seus fantasmas não se extinguiram com o labor diário. Precisava de ajuda! Isso parece muito com a expressão davídica que diz: “Enquanto calei, meus ossos se secaram”.

O que faz o velho pai? Ele abre espaço para que o filho mais velho também se aproxime e tenha a oportunidade de sair curado daquele encontro. Nesse caso, a possibilidade de cura só acontece quando há exposição da alma.

É interessante perceber que o pai recebe de coração aquele que resolve voltar, enquanto trata do coração daquele que não está bem resolvido. Esse é o pai pródigo de amor. É misericordioso na raiz da palavra. Ele põe seu coração (cárdio) na miséria (miseris) dos filhos num desejo ardente de perdão e reconciliação.
Esse pai figura o Deus maravilhoso da Bíblia que busca receber e tratar dos corações dos filhos e filhas que se perdem de si e da vida. Ele abre seu coração dá oportunidade para que falemos nossas misérias, nossas queixas.
Ao final dessa parábola, o filho que retorna à casa do pai, é recebido em festa, mas é preciso atentar para o detalhe que não há como dizer que o outro filho tenha se votado para a casa em festa. E, eu creio que isso diz respeito ao chamado de Deus que só quem pode responder sou eu, ou você.
Ele já deu seu recado. Há festa na casa e tem gente aproveitando. Tem gente se divertido livremente. Em outras palavras, só falta você responder ao seu chamado de amor. É sua vez, é sua voz. A escolha é sua, somente sua!

quarta-feira, 10 de março de 2010

PAZ E DESARMAMENTO


Li o livro UMA ÉTICA PARA O NOVO MILÊNIO do Dalai Lama e resolvi compartilhar alguns de seus pensamentos para que possamos refletir juntos.

Estou convencido de que a principal razão para as pessoas acharem que o caminho da não-violência é pouco prático deve-se ao fato de que parece não adiantar nada enveredar por ele, pois a sensação é de desânimo.
A paz não é algo que existe de modo independente de nós, a guerra também não. [...]. A paz do mundo depende da paz do coração das pessoas. O que, por sua vez, depende de todos nós praticarmos a ética, disciplinando nossas reações aos pensamentos e emoções negativos e desenvolvendo qualidades espirituais fundamentais.
Se a verdadeira paz é algo mais profundo do que um frágil equilíbrio baseado em mútua hostilidade, se em última análise depende da resolução de conflitos internos, o que dizer da guerra? Apesar de, paradoxalmente, o objetivo da maioria das campanhas militares ser a paz, na verdade a guerra é como um incêndio na comunidade humana, um incêndio cujo combustível são pessoas vivas. [...] Deixamos de reconhecer que a fria crueldade e o sofrimento são a verdadeira natureza da guerra.
A triste verdade é que fomos condicionados a encarar os procedimentos de guerra como algo excitante e até glamouroso: os soldados marchando com uniformes vistosos (tão atraentes para as crianças), com suas bandas militares tocando ao lado. Apesar de vermos o assassinato como algo terrível, não associamos a guerra com a criminalidade. Pelo contrário, a guerra é vista como uma oportunidade para as pessoas provarem a sua competência e a sua coragem. Falamos sobre os heróis que a guerra produz quase como se o heroísmo do indivíduo fosse medido pelo número de indivíduos mortos. E falamos sobre essa ou aquela arma como uma invenção tecnológica maravilhosa, esquecendo que será usada para mutilar e matar pessoas vivas. Seu amigo, meu amigo, nossas mães, nossos pais, nossas irmãs e nossos irmãos, você e eu. [...].
Mas, para que não se imagine que a paz depende apenas do desarmamento, cabe ainda lembrar que as armas não agem sozinhas. Apesar de serem inventadas para matar, não causam nenhum dano físico enquanto estão guardadas nos depósitos. Alguém tem que apertar o botão para lançar um míssil ou puxar um gatilho para dar um tiro. Não é nenhum “poder maligno” que faz isso. São os homens. [...].
É querer demais que todas as armas sejam eliminadas, pois, afinal, até nossos punhos podem ser usados como armas. E haverá sempre grupos de desordeiros e fanáticos para perturbar os outros. Temos que admitir que, enquanto existirem seres humanos, será necessário encontrar maneiras de lidar com os canalhas. Cada um de nós tem uma função a cumprir nessa questão. Quando nos desarmarmos internamente – refreando pensamentos e emoções negativos e cultivando qualidades positivas-, criamos condições para o desarmamento externo. A paz mundial genuína e duradora só será possível como resultado do esforço interno de cada um de nós.

Dalai-Lama (Uma ética para o novo milênio – Ed. Sextante. Págs 150-154)

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

MATUTANDO SOBRE A VIDA E SOBRE DEUS


Eu estava matutando nesses dias sobre tudo o que tenho lido, meditado, e vivido nesses turbulentos anos de ministério no que diz respeito às tantas catástrofes, violência urbana, corrupção e descaso para com os mais fragilizados e carentes.

Tenho recebido pessoas tão carentes e tão sufocadas que me parece refletir a imagem de alguém cuja oportunidade de superação esperada com esforço por muito tempo é passada a vez por causa de outro com mais força e habilidade que, naquele momento não respeita a dor o mais necessitado ou visa a resposta egoísta em detrimento da carência coletiva. Afinal outra pessoa consegue perceber ou até preconizar onde e quando as águas são agitadas pelo anjo. Os outros que se danem.

Isso também pude observar no esforço da tanta gente querendo ajudar ao povo sofrido do Haiti enquanto alguns insensíveis se acham no direito de desviar alguns recursos em nome de uma necessidade nem de longe emergencial. Sem falar da dor que sentimos nos casos absurdos de pessoas que matam a granel. É evidente a desumanidade à flor da pele humana.

Nesse momento oro, não mais ao Deus da minha consciência infantil que me parecia o super-homem pronto a me defender das aflições das garras do mal; nem mesmo oro ao Deus de minha consciência juvenil que parecia me garantir o céu após esse tempo de dor.

Lembro que meu pai era o meu super-herói, totalmente capaz de resolver todas as questões. “Vou dizer ao meu pai! Ele resolve isso rapidinho!”

Cresci e com isso minha relação com a vida e com meu pai. Enquanto isso, a categoria de super-herói de meu pai foi abrindo espaço para outro entendimento. O meu pai não era meu super-herói porque resolvia tudo, mas porque me amava e estava sempre disposto a me escutar as lamúrias infantis razoáveis. Com o tempo fui aprendendo que ele não era o todo-poderoso na categoria que imaginava, mas que sua verdadeira força de todo-poderoso estava em sua capacidade de se baixar e conversar comigo olhando nos olhos e revelando sua autoridade que se baseava no esforço de me tornar homem maduro e me conduzir à responsabilidade diante da vida. Toda a idéia de compensação de minha mãe; aliás, nossa mãe tem esse jeitinho de conquistar. Toma no colo e diz que depois a mãe vê isso, depois a mãe recompensa. Mas, toda essa beleza de relacionamento é um esforço de nos tornar homens e mulheres capazes.

Quando oro, me debruço sobre os textos sequentes das Escrituras, e percebo que isso também acontece na minha relação com Deus. Diferente do de um super-homem, ele não aparece para resolver, mas como um pai maravilhoso resolve passar todo o tempo conosco em amor nos ajudando em nossas crises, enquanto propõe aos da família se juntarem a ele nesse propósito que torna todo filho e filha dignos e dignas. O poder do Pai está na prodicidade de seu amor que desafia-nos ao envolvimento.

Então, como a força do meu pai, que não deixou de ser grande, a força de Deus está em se projetar nos filhos, enquanto nos desafia a viver intensamente essa parceria. Claro que meus devaneios não respondem às tensas questões das demandas da vida, mas sinceramente para mim o caminho se torna mais claro ao perceber Deus nas lágrimas de um bombeiro que segura a mão de uma sobrevivente ainda debaixo dos pesados escombros dos desastres cegos da vida.

Deus não parece menos Deus quando se reflete no pequeno. Que diga isso a encarnação de Jesus. Deus não parece menor porque supostamente não resolve as coisas de acordo com a nossa cartilha. Que diga a sua atitude, que parece com a nossa, diante da cruz quando se debate em lágrimas sem perceber a presença do Pai.

Deus é lindo e maravilhoso, não porque é capaz e esperado como resposta mágica aos conflitos de uma sociedade narcisista e egocêntrica. De certa forma, acabaríamos reclamando o porquê tanta necessidade de oração a cada vez que sofremos em vez de vermos uma operação do todo-poderoso em erradicar o mal ainda em nossa vida aqui com as habilidades correntes, e não somente quando houver súplica diante de um episódio que acaba conflitando com o quadro macro da sociedade.

Deus é lindo e maravilhoso porque em meio a tanta dor, aflição e desconforto, nos trata com amor e dignidade. Enquanto sofre com os sofridos dispondo-lhes força consoladora e resiliente, convida a todos para se engajarem nesse projeto de transformação da criação.

Josué

domingo, 31 de janeiro de 2010

O DESAFIO DE RECOMEÇAR




Desde cedo ouvi a bela história de Noé. Hoje vejo que ainda estou aprendendo com ele arte de recomeçar a vida.

A narrativa bíblica de Noé além de interessante é rica em lições apropriadas à perspectiva de uma vida com Deus diante do desafio de seguir adiante.

Sua história se inicia com um testemunho de Deus sobre sua fidelidade e segurança em Deus. O dilúvio havia consumido a vida. A arca era sua realidade naquele instante. Ele precisava sair para reconstruir sua vida e de sua família, mas como?

Creio que Noé entendeu algumas nesse ínterim.



O tempo não tem que ser seu inimigo, mas deve ser reconhecido como seu aliado.

A bíblia diz que “Deus se lembrou de Noé” e o processo começou. Deus não usou (e não usa) seu poder para fazer as coisas pertinentes aos homens de forma instantânea. Ele sabe que precisamos de tempo. Sabe que o instantâneo nos torna superficiais. Isso se aplica aos estudos, declarações de amor ou ódio, nomeações profissionais, títulos, etc. O instantâneo pode parecer bom, mas não é de fato. Deus sabe que você precisa de tempo para assimilar a vida com todas as suas demandas. Isso é preciso ser levado a sério. Recomeçar pode ser um processo lento. Isso demanda tempo, e o tempo é seu aliado, não seu inimigo.



Não se deve tomar decisão antes de uma contemplação.

Observe que Noé (v.6) abre a janela do alto da arca. Nesse momento, a arca era sua realidade existencial e momentânea, não perene. Seu novo tempo não poderia se resumir à arca. Noé ousa e toma algumas precauções. Ele abre a janela e não a porta. A janela ficava na parte alta da arca.
A melhor realização é aquela que é precedida pela contemplação. Antes da realização, é necessário vislumbrar, logo, tomar alguns cuidados, sondar o terreno. Em outras palavras, é preciso ficar de olho naquilo que nos rodeia de forma que não nos precipitemos. Quem sabe não foi por isso que Noé, antes de sair da arca, solta algumas aves aguardando algum sinal para sair para uma nova realidade de vida fora da arca. Quer tomar uma decisão, verifique o tempo, antes de agir, de fato. Mas cuidado. Não se doe num projeto que não consegue vislumbrar. Abra uma janela antes de sair à porta.



Cuidado com os recursos que decide usar.

A próxima ação de Noé é soltar um corvo (v.7). Nem tenho idéia porque Noé usa o corvo para lhe trazer um sinal, já que essa é uma ave com hábitos necrófagos. O corvo zig-zaguea e não define uma resposta para Noé. Nesse resultado impreciso, Noé percebe haver tomado uma decisão errada, por isso ele decide usar outro recurso – soltar uma pomba. Isso pode ser uma lição para termos o devido cuidado em nosso planejamento. Cuidado com que (ou quem) contamos. Claro que isso também denuncia nossa limitação e possibilidade compreensível de errarmos em algum ponto que não corresponde com o melhor para nós. É fácil haver precipitação e acabarmos contando com algo ou alguém que não nos levarão a lugar algum. Muitos tomam decisões sem pesar as conseqüências. Precisamos tomar cuidado com essas coisas. É melhor darmos um tempo para fazermos as coisas com menores chances de erro.



Valorize a espiritualidade em toda a sua caminhada.

É importante perceber alguns detalhes. Para Noé, passar tanto tempo dentro de uma arca cheia de animais, mau cheiro, trabalho pesado, e escravo da situação era uma realidade existencial momentânea, não perene. Aquela era a sua realidade, mas ele sabia que poderia ser bem pior se estivesse do lado de fora. Muitas vezes o jardim do outro é mais belo do que o nosso. A vida do outro parece ser melhor do que a nossa. O outro parece ser bem mais próspero do que nós.

Noé sabe que apesar de tudo parecer tão difícil para ele, Deus lhe inspira através da percepção de sua presença. Noé se planeja, toma algumas decisões (corvo e pombas), mas lhe parece claro que Deus lhe fala no v.15: “Hora de sair dessa arca, Noé”. Em outras palavras: - “Noé, você se sente salvo dentro da arca, mas você precisa avançar para novos horizontes”. Ou inda poderia ter sido: “Noé, se você acha que lhe aconteceu um milagre por ter vencido o dilúvio, saiba que o milagre, antes de ser um benefício é um chamado à parceria e ao trabalho. Na verdade é uma responsabilidade”.

O v. 15 Noé é convidado a unir força comunitária familiar para se expandir.

O que está acontecendo com Noé? Ele está tendo a oportunidade de dar novo sentido à sua vida, agora fora da arca.

Um novo ano não é somente mais um ano, é também um chamado a sair da arca do comodismo. Isso se aplica à vida profissional, aos estudos, à vida com Deus em todos os níveis da existência.
O v. 20 diz que, logo que Noé sai da arca, constrói um altar. Aqui parece haver um belo sinal para quem deseja recomeçar bem.

O ideal é não esquecer Deus no caminho da vida. Apesar de isso não ser garantia que você vai acertar em tudo na vida, já que as decisões são sempre arriscadas, podemos conferir a beleza de poder contar com Deus em nossa caminhada. Noé foi alguém que não acertou em tudo, mas com certeza sinalizou uma vida com Deus.

Uma vida recomeçada em Deus não é uma vida livre de percalços, livre de dores, livre de possibilidade de erros... vida recomeçada em Deus significa que buscamos incorporar seus atributos de amor e justiça, para seguirmos um caminho de maior dignidade.

Noé e os seus sabiam que recomeçar não seria fácil. Essa tarefa não caberia a Deus, mas a eles.
Eles já tinham, assim como cada um de nós, a força e a capacidade necessárias para vencer cada etapa da vida.

Com isso ouso dizer que, se pra vencer 2010 houver a exigência de coragem, força e fé, 2010 já é nosso, porque Deus já nos recheou dessas graças.

Acredite – é possível vencermos os obstáculos desse novo ano.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

"O PASTOR CONTEMPLATIVO"


Acabei de ler “O Pastor Contemplativo” de Eugene Peterson.

Algumas pérolas do livro:

- Jesus, O Subversivo – Jesus foi o mestre da subversão. Até o fim, todos, inclusive os discípulos, o chamavam de rabi. O rabis eram importantes, mas não faziam nada acontecer. Nas ocasiões em que houve suspeitas de que talvez ele fosse mais do que o título apontava, Jesus tentou manter as coisas em segredo: “Nada diga a ninguém”.

A forma de discurso favorita de Jesus, a parábola, é subversiva. As parábolas parecem histórias absolutamente comuns, casuais, sobre solo e semente, refeições, moedas, ovelhas, bandidos e vítimas, fazendeiros e comerciantes. Elas são também inteiramente seculares: dentre as cerca de quarenta parábolas registradas nos evangelhos, só uma tem como ambiente a igreja e só duas mencionam o nome de Deus.

Quando as pessoas escutavam Jesus contar essas histórias, vivam imediatamente que não eram sobre Deus e que não continham nada que ameaçasse a suposta soberania delas. Então baixavam a guarda. Embora perplexas, iam indagando qual o significado das histórias, que ficavam gravadas em sua imaginação. Mais tarde, como uma bomba-relógio, elas explodiam em seus corações desprotegidos. Um abismo se abria a seus pés. Ele estivera falando sobre Deus; eles tinham sido invadidos.

Jesus continuamente lançava histórias estranhas ao longo das vidas normais (para – “ao longo de”; bole – “lançar”) e se retirava sem explicação ou apelos. Os ouvintes começavam, então, a ver as ligações, as conexões de vida, de eternidade. A própria falta de clareza, a diferença, eram estímulos para perceber a semelhança: semelhança com Deus, semelhança com a vida, semelhança com a eternidade. Mas a parábola não realizava o trabalho – ela fazia a imaginação do ouvinte trabalhar. As parábolas não são ilustrações que facilitam as coisas, pelo contrário, elas se não tivermos cuidado, acaba se tornando o exercício de nossa fé.

As parábolas atravessam subversivamente nossas defesas. Dentro da cidadela do “eu”, podemos esperar uma mudança de estratégia, um brandir súbito de baionetas que resulte num golpe contra o palácio. Mas isso não acontece. Nossa integridade é respeitada e preservada. Deus não impõe sua realidade de fora para dentro; ele faz crescer flores e frutos de dentro para fora. A verdade de Deus não é uma invasão alienígena, mas um romance amoroso em que detalhes comuns de nossa vida são tratados como sementes cultivadas para nossa concepção, crescimento e maturidade no Reino.

As parábolas confiam em nossa imaginação, ou seja, em nossa fé. Elas não nos arrebatam paternalmente para uma sala de aula onde as coisas são explicadas e diagramadas. Não nos colocam em regimentos onde nos encontramos marchando a passo de ganso moral.

É difícil descobrir um detalhe sequer na história do evangelho que não fosse negligenciado na época (e ainda hoje) por ser improvável, desprezível, comum e considerado ilegal. Sob a superfície do convencional, porém, e por trás do cenário de probabilidades, cada um daqueles detalhes estava efetivamente inaugurando o Reino: gravidez ilegítima (como foi suposto), nascimento na manjedoura, silêncio em Nazaré, trabalho secular na Galiléia, curas no sábado, orações no Getsêmani, morte como criminoso, água batismal, pão e vinho. Subversão.

(Extraído de "O PASTOR CONTEMPLATIVO - Descobrindo significado em meio ao ativismo", um livro de Eugene H. Peterson. págs 40,41)

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Um grande escândalo!

Estou escandalizado! Não sei qual foi a razão pela qual a notícia aterradora não teve grande repercussão. Acho intrigante que notícias sobre o último “caso” da Madonna tenham mais destaque e despertem mais o interesse do grande público do que o que realmente importa à raça humana. Quando vi achei que tinha entendido errado, mas não, era aquilo mesmo: em 2009 o mundo tem um bilhão de famintos. A notícia foi dada pelo Programa Alimentar Mundial da ONU. Daí pensei: bem, devem ser um bilhão de pessoas com alimentação insuficiente, mas não que passam fome. Não era. Estes que não se alimentam o suficiente são três bilhões. Um bilhão são famintos mesmo. Fiquei estarrecido. Só um terço da população mundial come bem todos os dias. Isso é um escândalo. Mas ninguém liga.

Nem aqueles que se julgam muito religiosos ligam. Boa parte destes está mais preocupada com coisas irrelevantes do que com a vida humana. Se escandalizam com coisas mínimas mas são indiferentes com a banalização da vida. Tony Campolo, pregador e escritor cristão, disse, certa vez, numa palestra para estudantes universitários, o seguinte: “Enquanto você dormia ontem, 30.000 crianças morreram de fome ou de doenças relacionadas a má nutrição. E mais, a maioria de vocês nunca ajudaram em merda nenhuma. E o que é pior: você está mais perturbado com o fato de eu ter dito ‘merda’ do que com a notícia de que 30.000 crianças morreram de fome na última noite”. Certamente muitos dos que leem esse texto, neste exato momento, também se perturbariam mais com um pastor falando “merda” durante uma pregação do que com a notícia de um bilhão de famintos no mundo. Coam um mosquito e engolem um camelo.

O que tornou a notícia ainda mais escandalosa é que Josette Sheeran, diretora-executiva do Programa Alimentar da ONU, disse que se fosse investido menos de 1% de tudo o que foi gasto para conter a crise econômica mundial, o problema da fome seria resolvido no mundo. Repito, menos de 1%.

E sabe o que é ainda pior? É que muitos de nós cruzam os braços, olham para os céus e dizem: “Deus quis assim, que seja respeitada a vontade de Deus”. Cinismo. Omissão. Pecado. Deus não quer isso. E já nos deu todas as condições para acabar com essa miséria. O mundo produz comida suficiente para todos. Nós é que não dividimos de modo equitativo. A culpa é nossa, não de Deus. O mundo prefere gastar trilhões para salvar o sistema financeiro do que alguns bilhões para erradicar a fome.

E não há “atos proféticos”, nem orações piedosas, nem qualquer outra prática litúrgica que dê jeito nisso. Enquanto as pessoas, em especial aquelas que se dizem cristãs, não perceberem que a solidariedade é um imperativo do Reino de Deus, as coisas não vão mudar. Enquanto acharem que escândalo é soltar um palavrão ou tomar uma cervejinha no fim do dia, os milhões vão continuar morrendo sob a mais diabólica indiferença do “rebanho”.


OBS: Texto publicado de Márcio Rosa (Betesda em Boa Vista - Roraima)

quinta-feira, 25 de junho de 2009

FESTAS JUNINAS, A CULTURA NORDESTINA E A BÍBLIA



Nosso Brasil é um país lindo e culturalmente rico. Somos conhecidos pelas nossas expressões de arte: nosso futebol, capoeira, samba, carnaval e caipirinha. Mas, minha gente, nosso nordeste é forte mesmo é com o “forró”, de preferência (só minha?) o “pé de serra”.

Quando o forró aparece em cena? Talvez do forrobodó do final do século XIX, que, conforme o folclorista Luiz da Câmara Cascudo, seria a dança do arrasta-pé. Ou conforme se tornou conhecido com a imagem dos estrangeiros que conheceram os passos de uma dança tipicamente brasileira (nordestina) e logo entenderam que essa dança servia “para todos”, ou, como eles disseram, “for all”. Assim, os brasileiros que não entendiam o inglês adotaram o nome “Forró”. Todos se divertiam de forma harmoniosa e sem contenda.

Só que tem um monte de gente que se prende à possibilidade do pecado no forró como em qualquer dança. Mas, será que há pecado na dança ou em quem dança? Legitimamente a preocupação deveria ser o CUIDADO com a intenção do que se faz na vida, quer seja na dança, na alimentação, nos exageros, etc. O que há em seu coração como motivação é que te conduz. A Bíblia diz que devemos nos transformar pela renovação de nossa mente e assim conheceremos a boa, agradável e perfeita vontade de Deus (Romanos 12.2). Que, aliás, Deus mais parece um estraga prazeres. Você nunca se surpreendeu acompanhando com o pé, ao ouvir um forró com seu belo ritmo soando harmonicamente aos ouvidos? Não se culpe, Deus sabe que você tem sangue nordestino.

Outra coisa. Sabemos que o catolicismo romano adota as festas de “São João” e “São Pedro” nessa época. Sem querer provocar, penso que a igreja Católica, sabiamente, aproveitou a época da colheita agrícola para motivar seus fiéis à gratidão a Deus, mas, infelizmente, com a brecha da mediação dos santos homens de Deus, o que pode provocar mais do que uma homenagem aos santos homens que viveram no passado remoto.

De qualquer modo, entendo que nada há de estranho em aproveitarmos nosso espaço para curtirmos essa festa de forma sadia, lembrando de que, “quer comamos, bebamos, ou façamos qualquer coisa, que seja no Senhor” (I Coríntios 10.31), ou seja, como crentes não levianos, respeitando os que não concordam, não brincam, não curtem, não comem as comidas típicas; aliás, nem deviam comer, se não concordam com uma festa caipira.

Amo a mensagem de “São João Batista” quando se refere a Jesus: “Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” (Evangelho de João 1.29); e ainda quando “São Pedro” em sua revelação diz que: “Em nenhum outro há salvação, pois também, debaixo do céu, nenhum outro nome foi dado entre os homens pelo qual devamos ser salvos” (Atos 4.12).

Nossa festa caipira, nada tem de idolátrica. Os santos do passado estão aos cuidados de Deus, não intercedem por nós, e não oramos a eles. O que nos resta é apenas aproveitar seus exemplos de vida e fé.

Então, minha gente boa, se não há por quê “brincar” as festas de “São João” ou “São Pedro”, há bons motivos para festejarmos a realidade das chuvas como equilíbrio das estações, as bênçãos das chuvas nos roçados de nossos irmãos agricultores; e, as primeiras colheitas desses roçados (milho, feijão, mandioca, etc).

Enfim, se em vez de importarmos idéias de outras culturas e nações estranhas à nossa, e passarmos a ler a Bíblia com as lentes de nossa cultura, creio que influenciaríamos mais aos nossos conterrâneos enquanto estes entenderiam melhor a mensagem desse Deus que se faz conhecido em sua linguagem.