sexta-feira, 28 de maio de 2010

SURGIMENTO DE UMA SOCIEDADE ALTAMENTE CONSUMISTA


O consumismo está ligado à Revolução Industrial e ao poderio da produção em massa. No início da Revolução Industrial, os empregadores viam os empregados apenas como produtores de mercadorias. Porém, uma sociedade voltada para a produção em larga escala precisa dispor de um amplo mercado consumidor. Para aumentar a demanda de consumo, criou-se uma relação entre as commodities – itens de consumo que possibilitam status e prestígio – e a identidade. Como pontua o economista e sociólogo norte-americano Thorstein Bunde Veblen, no livro A Teoria da Classe Ociosa, o consumo, além de satisfazer necessidades, indica riqueza, funcionando imediatamente como evidência de status e prestígio, o que enaltece o eu do consumidor. O melhor meio de se obter um aumento do consumo é pela propaganda, pois além de trazer informações sobre produtos, ela promove um estilo de vida, criando assim um novo produto – o consumidor.na opinião de vários sociólogos,filósofos e economistas, é assim que a sociedade molda nossas escolhas, preferências e desejos. A sociedade é construída em função dessa premissa, centrada no eu, que por estar sempre em busca de compensações é facilmente seduzido pelas propostas que recebe. O eu cai então em um vazio existencial, tentando satisfazer seus anseios por meio de uma tetralogia niilista construída de hedonismo, consumismo, permissividade e relatividade.
A conclusão que chegamos é que a sociedade contemporânea se caracteriza por uma valorização do comportamento hedonista, com a busca do prazer aqui e agora, oposto à ascese religiosa, colaborando para o desenvolvimento de tipos narcisistas e egoístas de personalidade. Enfim, o consumismo se torna um elemento fundamental para o eu moderno construir sua identidade. O principio de Descartes – “penso, logo existo” – para a ser “compro,logo existo”.
[...]O consumismo é preocupante também entre os cristãos. Ao valorizar a aquisição de bens, a teologia da prosperidade transmite a idéia de que, se a pessoa está em Cristo, ela pode consumir, como demonstra o sociólogo da religião Ricardo Mariano. A máxima de Descartes, que havia passado para “compro, logo existo”, passa a ser agora “oro, logo adquiro”, ou “determino, logo compro”! Seja como for, a ênfase está no eu narcisista e não na fé cristã genuína. Em relação a esse tipo de consumismo narcisista entre os cristãos, o que percebemos é que o mundo evangélico brasileiro está se tornando um mercado específico.


Por Cláudio Antônio Cardoso Leite - retirado do Livro: "FÉ CRISTÃ E CULTURA CONTEMPORÂNEA" da editora Ultimato (págs. 198-200).

sexta-feira, 30 de abril de 2010

OS DESAFIOS DO SAGRADO


Deus é um contador de história, ou se preferir, estória. Falo assim porque a cada história dá-se a oportunidade ou desafio de mudança. O Espírito é dinâmico e como tal nos motiva a funcionar, a nos mover na vida e sempre na pretensão de crescer.
Não é difícil ver o Deus da Bíblia presente em Jesus e em cada história de seus amados. Essas composições bíblicas nos aproximam da realidade do Emanuel (Deus conosco) presente também em nossos eventos rotineiros.
Assim como Jesus se aproxima dos barcos dos pescadores (Lc 5.1-11), se aproxima de nossa realidade de vida e em nosso ambiente de trabalho e relacionamentos. Isso é verdade, por mais que esses eventos estejam carregados de desventuras, assim como aqueles pescadores desventurados que passaram a noite pescando e agora estavam lavando as redes sujas resultado de uma noite de pescaria sem pescado.
Caminhando por esse texto penso nos possíveis desafios da parte de Deus que nos quer bem. Esse Deus na pessoa de Jesus deseja ardentemente nos promover a uma vida de crescimento e, penso que dá pra gente tirar algumas conclusões de como isso acontece, não como regra, mas como possibilidade:

Em primeiro lugar somos desafiados a abrir espaço para que o sagrado se manifeste. Logo nos primeiros versículos de Lc 5 vemos Jesus sendo pressionado por uma multidão ávida por uma palavra de sua boca. O que Jesus faz? Entra em um dos barcos (o de Simão) e pede para que o afaste para que de lá ensine ao povo. Ora, a carência de se ouvir uma palavra é evidente, bem como a carência de espaço para o sagrado em muitos ambientes e níveis da história humana. Há carência de abertura de espaço em muitas ambiências universitárias, empresas dentre tantas. O que aconteceu com Simão foi um desafio a abrir espaço para que uma palavra de esperança soasse de forma abençoadora. Isso aconteceu de dentro de um barco cuja história foi inglória. Até parece que Deus escolhe os mais carentes para, a partir daí trabalhar sua bondade e esperança. Simão foi testemunha da palavra de esperança para aquela multidão. Foi ele quem abriu esse espaço e de lá a palavra surgiu.

Em segundo lugar o desafio passa da abertura do sagrado aos outros para a abertura para o sagrado de forma mais particular. Veja que há um monte de gente que abre espaço para sagrado para o filho lhe indicando a agenda de uma igreja ou incentivando à oração e leitura da Bíblia. Alguns maridos chegam a lembrar à esposa da agenda de um evento da igreja, vai deixá-la na igreja ou em um evento sagrado fora do templo. O problema é que essa abertura vai abençoar ao outro assim como Simão abençoou a multidão. Isso garante o sagrado para os outros enquanto, apesar de se conquistar um possível título de amigo do bem, do sagrado ou do evangelho, esse é um envolvimento indireto (para os outros) e não direto (para si mesmo). Lucas disse que Jesus se dirige diretamente a Simão, lhe chamando pelo nome lhe pedindo um envolvimento de abertura do sagrado para seu nível pessoal. No termo: “Simão, vá para as águas mais fundas” está inserido a proposta de um envolvimento pessoal. Uma oportunidade de abertura de coração para o sagrado. Isso indica que na relação com o sagrado, o marido, tanto quanto a sua esposa deve ser desafiado a abrir espaço para o sagrado. Assim, os pais devem abrir espaço para o sagrado também para eles. Não é, “faça o que eu digo que é melhor para você”, mas, “façamos todos, nos envolvamos com o sagrado que é melhor para todos nós”. É importante ter a mesma agenda relacionada ao sagrado e todos participarem da fé individual e comunitária.

Em terceiro lugar há o desafio de conhecer a pessoa de Jesus mais do que os conceitos sobre ele. Veja que o versículo 5 diz que Simão respondeu a Jesus: “Mestre, nós nos esforçamos a noite inteira e não pegamos nada. Mas, porque és tu quem está dizendo isto, vou lançar as redes”. Logo mais Simão se tornará discípulo de Jesus, mas nesse momento ainda não é. Ele reconhece Jesus como “Rabi” ou “Mestre” e, por isso lhe obedece. É como se dissesse: “Mestre, quem é pescador aqui somos nós. E, como tais, passamos a noite tentando e nada pegamos, mas como sabemos que és mestre, e como tal te reconhecemos, faremos o que nos diz, afinal, todo judeu deve obediência aos mestres”. Então, eles obedeceram Jesus, não por imaginar a possibilidade de uma pesca lucrativa, nem por serem discípulos (ainda não são), mas como obedientes culturais aos mestres. Enfim, quando lançam as redes, tomam um baita de um susto quando percebem a maravilha da pescaria. É então que Simão percebe que Jesus é mais do que um simples mestre que exige obediência. Esse Jesus é alguém especial. Para Simão, Jesus agora é reconhecido, mais do que como a uma divindade, como a uma deidade. Ele é Deus. É por isso que se dobra a essa revelação e diz: “Afasta-te de mim, não sou digno... sou um pecador”. Isso nos diz que quando descobrimos em nosso coração quem é Deus, descobrimos também quem somos. Agora Simão, bem que poderia escrever um livro de “auto-ajuda” sobre “como se tornar um sucesso na pescaria, segundo Jesus”. Na verdade, ele percebe que conhecer Jesus é bem melhor que aprender algo sobre ele. Nosso desafio é mais do que seguir o exemplo do mestre. É reconhecê-lo como é em sua deidade. Então, mais do que apontar o caminho, ele quer ser o caminho; mais do que apontar a verdade, ele quer ser reconhecido como a verdade; e, mais do que apontar a vida, ele deseja ser sua vida.

Por fim, o próximo desafio é viver uma nova dimensão de vida. Os versículos 10 e 11 falam desse desafio: “Simão, não tenha medo; de agora em diante você será pescador de homens”. Eles então arrastaram seus barcos para a praia, deixaram tudo e o seguiram. Por “nova dimensão” digo do desafio e da beleza de, diante de toda essa experiência com o sagrado, viver um novo sentido de vida dentro da realidade de sua história e de todos os eventos comuns (pescaria, no caso de Simão). É o mesmo que dizer: “Sê tu uma bÊnção!”. Seja uma bênção em seu trabalho e faça dele uma bênção! Faça de seu novo estilo de vida uma oportunidade de abençoar e promover o bem para que pessoas sejam alcançadas pela bondade de Deus. Veja que quando eles deixaram tudo e o seguiram, não o fizeram de forma irresponsável, mas que todo o reconhecimento de riqueza teria novo sentido. A bênção, mais do que o sucesso no trabalho, seria a beleza de contar com Deus em todo o processo de vida.

Esse é nosso desafio como filhos e filhas de Deus. Tudo se torna secundário diante da presença de Deus em nossas vidas. A maior riqueza de vida está na caminhada com esse Deus que se revela no nosso barco, ainda que em desventura, mas com a possibilidade de transformação total e abençoada tanto como abençoadora. Esse é um novo sentido de vida que transforma um coração amargurado pelas desventuras da vida em novas e tremendas possibilidades que ultrapassam os conceitos de sucesso mundano e triunfalista. Claro que é bom ter dinheiro, bens, etc., mas nada como em todo processo de vida podermos perceber Deus e sua bondade transformadora.

Josué

quarta-feira, 31 de março de 2010

O PAI PRÓDIGO DE AMOR


Jesus contou uma parábola registrada no evangelho de Lucas que trata da saga de um pai que é pródigo de amor e bondade. Ele conta que um pai vive a experiência de receber um de seus filhos para uma prestação de contas. O filho mais novo lhe pede a parte que lhe cabe da herança, dizendo que vai embora, e, se a herança seria dele mesmo, não havia motivo para esperar até que seu pai se fosse, afinal ele estava precisando daquela herança era naquele momento.
O que se espera é que o velho pai usasse de sua posição de autoridade para dizer não àquele filho insolente. Mas ele surpreende consentindo e lhe dando a parte que lhe cabia da herança.

Uma fala atribuída a Voltaire (1694-1778) diz: “Não concordo com uma palavra do que dizes, mas defenderei até a morte o teu direito de dizê-las”. Uso essa colocação para dizer que há um monte de gente, que independente da gente, pensa e reage de forma bem diferente de tudo aquilo que poderia pensar, dizer, agir, reagir. Em outras palavras ou a gente cria uma margem de possibilidades de surpresas ou vai precisar se aprontar para sofrer muito, porque os filhos, cônjuges, pais, amigos, clientes, pacientes surpreendem positiva ou negativamente.

O filho realmente foi embora para um lugar distante. Lá desperdiçou toda a sua herança vivendo irresponsavelmente. Ele acabou experimentando o sentimento da perda, não somente de seus bens, mas das pessoas que estavam sempre com ele. Ele percebe que as facilidades não são chaves perenes. Nesse tempo, o garoto além de experimentar a fome, coisa impensável para ele, se ver obrigado a mudar de ramo. Ele, que já havia sido fazendeiro, agora tinha que lidar com porcos, não como dono, mas como cuidador.
Numa hora de cesta, depois de se obrigar a partilhar da comida dos porcos, um momento de reflexão acontece na sua mente, e ele trás à memória sua vida na casa do pai e decide retornar pedindo perdão a seu pai. Foi aquele sentimento de mea culpa! Ele percebe que tudo foi uma precipitação, e agora estava arcando com as consequências. Assim como esse garoto, dificilmente não se paga caro uma precipitação.
O fato é que ele se lembra da casa do pai; e nesse instante, o que vem ao coração do garoto não foi a cama quentinha com lençóis limpos ou a riqueza do pai. Não tinha a ver com coisas, tinha a ver com gente. Era seu relacionamento com o pai que lhe fazia mais falta. Sua argumentação foi de relacionamento, não de funcionalidade.

Foi o seu tempo de descobrir que bons relacionamentos não devem ser capitulados, mas nutridos durante toda a vida.
Procurem se lembrar das coisas que aconteceram em períodos passados que representaram uma vida. Nesse período se construiu uma história que não devia ser capitulada. Esses casos devem ser adubados com encontros, telefonemas, e-mails, fotos em painéis, etc., nunca capitulados de forma insensível.

Quando o garoto volta pra casa, encontra seu velho pai de braços abertos e cheio de amor, o que nem lhe deixa tempo para explicações demoradas. Aquela casa estaria em festa. O perdão estava no ar.

Seu irmão não estava em casa, mas logo chegaria. Não chegou. Seu pai vai a seu encontro e descobre que ele não deseja participar da festa de seu irmão. Outra surpresa para o velho pai. Agora, quem surpreende é o filho mais velho.
“Ora”, diz o filho chateado, “desse jeito o senhor está valorizando a atitude irresponsável do garoto!”.
O coração do pai sofre esse evento descobrindo que quando seus filhos vieram a sua presença, um filho vai embora e o outro fica. Ambos pareciam resolvidos. Agora descobre que o filho que ficara em casa, apesar de ser valente no exercício do trabalho, era covarde em relação a tomada de decisões. O filho que voltou acabou conhecendo o coração bondoso de seu pai, enquanto seu irmão, não tinha saído de casa, ou deixado seu pai sozinho, mas ele, o filho mais velho não ficou resolvido. Havia permanecido todo o tempo com essa pendência mal resolvida. Conhecia todo o serviço da casa, mas não conhecia o coração de seu pai. Seus fantasmas não se extinguiram com o labor diário. Precisava de ajuda! Isso parece muito com a expressão davídica que diz: “Enquanto calei, meus ossos se secaram”.

O que faz o velho pai? Ele abre espaço para que o filho mais velho também se aproxime e tenha a oportunidade de sair curado daquele encontro. Nesse caso, a possibilidade de cura só acontece quando há exposição da alma.

É interessante perceber que o pai recebe de coração aquele que resolve voltar, enquanto trata do coração daquele que não está bem resolvido. Esse é o pai pródigo de amor. É misericordioso na raiz da palavra. Ele põe seu coração (cárdio) na miséria (miseris) dos filhos num desejo ardente de perdão e reconciliação.
Esse pai figura o Deus maravilhoso da Bíblia que busca receber e tratar dos corações dos filhos e filhas que se perdem de si e da vida. Ele abre seu coração dá oportunidade para que falemos nossas misérias, nossas queixas.
Ao final dessa parábola, o filho que retorna à casa do pai, é recebido em festa, mas é preciso atentar para o detalhe que não há como dizer que o outro filho tenha se votado para a casa em festa. E, eu creio que isso diz respeito ao chamado de Deus que só quem pode responder sou eu, ou você.
Ele já deu seu recado. Há festa na casa e tem gente aproveitando. Tem gente se divertido livremente. Em outras palavras, só falta você responder ao seu chamado de amor. É sua vez, é sua voz. A escolha é sua, somente sua!

quarta-feira, 10 de março de 2010

PAZ E DESARMAMENTO


Li o livro UMA ÉTICA PARA O NOVO MILÊNIO do Dalai Lama e resolvi compartilhar alguns de seus pensamentos para que possamos refletir juntos.

Estou convencido de que a principal razão para as pessoas acharem que o caminho da não-violência é pouco prático deve-se ao fato de que parece não adiantar nada enveredar por ele, pois a sensação é de desânimo.
A paz não é algo que existe de modo independente de nós, a guerra também não. [...]. A paz do mundo depende da paz do coração das pessoas. O que, por sua vez, depende de todos nós praticarmos a ética, disciplinando nossas reações aos pensamentos e emoções negativos e desenvolvendo qualidades espirituais fundamentais.
Se a verdadeira paz é algo mais profundo do que um frágil equilíbrio baseado em mútua hostilidade, se em última análise depende da resolução de conflitos internos, o que dizer da guerra? Apesar de, paradoxalmente, o objetivo da maioria das campanhas militares ser a paz, na verdade a guerra é como um incêndio na comunidade humana, um incêndio cujo combustível são pessoas vivas. [...] Deixamos de reconhecer que a fria crueldade e o sofrimento são a verdadeira natureza da guerra.
A triste verdade é que fomos condicionados a encarar os procedimentos de guerra como algo excitante e até glamouroso: os soldados marchando com uniformes vistosos (tão atraentes para as crianças), com suas bandas militares tocando ao lado. Apesar de vermos o assassinato como algo terrível, não associamos a guerra com a criminalidade. Pelo contrário, a guerra é vista como uma oportunidade para as pessoas provarem a sua competência e a sua coragem. Falamos sobre os heróis que a guerra produz quase como se o heroísmo do indivíduo fosse medido pelo número de indivíduos mortos. E falamos sobre essa ou aquela arma como uma invenção tecnológica maravilhosa, esquecendo que será usada para mutilar e matar pessoas vivas. Seu amigo, meu amigo, nossas mães, nossos pais, nossas irmãs e nossos irmãos, você e eu. [...].
Mas, para que não se imagine que a paz depende apenas do desarmamento, cabe ainda lembrar que as armas não agem sozinhas. Apesar de serem inventadas para matar, não causam nenhum dano físico enquanto estão guardadas nos depósitos. Alguém tem que apertar o botão para lançar um míssil ou puxar um gatilho para dar um tiro. Não é nenhum “poder maligno” que faz isso. São os homens. [...].
É querer demais que todas as armas sejam eliminadas, pois, afinal, até nossos punhos podem ser usados como armas. E haverá sempre grupos de desordeiros e fanáticos para perturbar os outros. Temos que admitir que, enquanto existirem seres humanos, será necessário encontrar maneiras de lidar com os canalhas. Cada um de nós tem uma função a cumprir nessa questão. Quando nos desarmarmos internamente – refreando pensamentos e emoções negativos e cultivando qualidades positivas-, criamos condições para o desarmamento externo. A paz mundial genuína e duradora só será possível como resultado do esforço interno de cada um de nós.

Dalai-Lama (Uma ética para o novo milênio – Ed. Sextante. Págs 150-154)

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

MATUTANDO SOBRE A VIDA E SOBRE DEUS


Eu estava matutando nesses dias sobre tudo o que tenho lido, meditado, e vivido nesses turbulentos anos de ministério no que diz respeito às tantas catástrofes, violência urbana, corrupção e descaso para com os mais fragilizados e carentes.

Tenho recebido pessoas tão carentes e tão sufocadas que me parece refletir a imagem de alguém cuja oportunidade de superação esperada com esforço por muito tempo é passada a vez por causa de outro com mais força e habilidade que, naquele momento não respeita a dor o mais necessitado ou visa a resposta egoísta em detrimento da carência coletiva. Afinal outra pessoa consegue perceber ou até preconizar onde e quando as águas são agitadas pelo anjo. Os outros que se danem.

Isso também pude observar no esforço da tanta gente querendo ajudar ao povo sofrido do Haiti enquanto alguns insensíveis se acham no direito de desviar alguns recursos em nome de uma necessidade nem de longe emergencial. Sem falar da dor que sentimos nos casos absurdos de pessoas que matam a granel. É evidente a desumanidade à flor da pele humana.

Nesse momento oro, não mais ao Deus da minha consciência infantil que me parecia o super-homem pronto a me defender das aflições das garras do mal; nem mesmo oro ao Deus de minha consciência juvenil que parecia me garantir o céu após esse tempo de dor.

Lembro que meu pai era o meu super-herói, totalmente capaz de resolver todas as questões. “Vou dizer ao meu pai! Ele resolve isso rapidinho!”

Cresci e com isso minha relação com a vida e com meu pai. Enquanto isso, a categoria de super-herói de meu pai foi abrindo espaço para outro entendimento. O meu pai não era meu super-herói porque resolvia tudo, mas porque me amava e estava sempre disposto a me escutar as lamúrias infantis razoáveis. Com o tempo fui aprendendo que ele não era o todo-poderoso na categoria que imaginava, mas que sua verdadeira força de todo-poderoso estava em sua capacidade de se baixar e conversar comigo olhando nos olhos e revelando sua autoridade que se baseava no esforço de me tornar homem maduro e me conduzir à responsabilidade diante da vida. Toda a idéia de compensação de minha mãe; aliás, nossa mãe tem esse jeitinho de conquistar. Toma no colo e diz que depois a mãe vê isso, depois a mãe recompensa. Mas, toda essa beleza de relacionamento é um esforço de nos tornar homens e mulheres capazes.

Quando oro, me debruço sobre os textos sequentes das Escrituras, e percebo que isso também acontece na minha relação com Deus. Diferente do de um super-homem, ele não aparece para resolver, mas como um pai maravilhoso resolve passar todo o tempo conosco em amor nos ajudando em nossas crises, enquanto propõe aos da família se juntarem a ele nesse propósito que torna todo filho e filha dignos e dignas. O poder do Pai está na prodicidade de seu amor que desafia-nos ao envolvimento.

Então, como a força do meu pai, que não deixou de ser grande, a força de Deus está em se projetar nos filhos, enquanto nos desafia a viver intensamente essa parceria. Claro que meus devaneios não respondem às tensas questões das demandas da vida, mas sinceramente para mim o caminho se torna mais claro ao perceber Deus nas lágrimas de um bombeiro que segura a mão de uma sobrevivente ainda debaixo dos pesados escombros dos desastres cegos da vida.

Deus não parece menos Deus quando se reflete no pequeno. Que diga isso a encarnação de Jesus. Deus não parece menor porque supostamente não resolve as coisas de acordo com a nossa cartilha. Que diga a sua atitude, que parece com a nossa, diante da cruz quando se debate em lágrimas sem perceber a presença do Pai.

Deus é lindo e maravilhoso, não porque é capaz e esperado como resposta mágica aos conflitos de uma sociedade narcisista e egocêntrica. De certa forma, acabaríamos reclamando o porquê tanta necessidade de oração a cada vez que sofremos em vez de vermos uma operação do todo-poderoso em erradicar o mal ainda em nossa vida aqui com as habilidades correntes, e não somente quando houver súplica diante de um episódio que acaba conflitando com o quadro macro da sociedade.

Deus é lindo e maravilhoso porque em meio a tanta dor, aflição e desconforto, nos trata com amor e dignidade. Enquanto sofre com os sofridos dispondo-lhes força consoladora e resiliente, convida a todos para se engajarem nesse projeto de transformação da criação.

Josué

domingo, 31 de janeiro de 2010

O DESAFIO DE RECOMEÇAR




Desde cedo ouvi a bela história de Noé. Hoje vejo que ainda estou aprendendo com ele arte de recomeçar a vida.

A narrativa bíblica de Noé além de interessante é rica em lições apropriadas à perspectiva de uma vida com Deus diante do desafio de seguir adiante.

Sua história se inicia com um testemunho de Deus sobre sua fidelidade e segurança em Deus. O dilúvio havia consumido a vida. A arca era sua realidade naquele instante. Ele precisava sair para reconstruir sua vida e de sua família, mas como?

Creio que Noé entendeu algumas nesse ínterim.



O tempo não tem que ser seu inimigo, mas deve ser reconhecido como seu aliado.

A bíblia diz que “Deus se lembrou de Noé” e o processo começou. Deus não usou (e não usa) seu poder para fazer as coisas pertinentes aos homens de forma instantânea. Ele sabe que precisamos de tempo. Sabe que o instantâneo nos torna superficiais. Isso se aplica aos estudos, declarações de amor ou ódio, nomeações profissionais, títulos, etc. O instantâneo pode parecer bom, mas não é de fato. Deus sabe que você precisa de tempo para assimilar a vida com todas as suas demandas. Isso é preciso ser levado a sério. Recomeçar pode ser um processo lento. Isso demanda tempo, e o tempo é seu aliado, não seu inimigo.



Não se deve tomar decisão antes de uma contemplação.

Observe que Noé (v.6) abre a janela do alto da arca. Nesse momento, a arca era sua realidade existencial e momentânea, não perene. Seu novo tempo não poderia se resumir à arca. Noé ousa e toma algumas precauções. Ele abre a janela e não a porta. A janela ficava na parte alta da arca.
A melhor realização é aquela que é precedida pela contemplação. Antes da realização, é necessário vislumbrar, logo, tomar alguns cuidados, sondar o terreno. Em outras palavras, é preciso ficar de olho naquilo que nos rodeia de forma que não nos precipitemos. Quem sabe não foi por isso que Noé, antes de sair da arca, solta algumas aves aguardando algum sinal para sair para uma nova realidade de vida fora da arca. Quer tomar uma decisão, verifique o tempo, antes de agir, de fato. Mas cuidado. Não se doe num projeto que não consegue vislumbrar. Abra uma janela antes de sair à porta.



Cuidado com os recursos que decide usar.

A próxima ação de Noé é soltar um corvo (v.7). Nem tenho idéia porque Noé usa o corvo para lhe trazer um sinal, já que essa é uma ave com hábitos necrófagos. O corvo zig-zaguea e não define uma resposta para Noé. Nesse resultado impreciso, Noé percebe haver tomado uma decisão errada, por isso ele decide usar outro recurso – soltar uma pomba. Isso pode ser uma lição para termos o devido cuidado em nosso planejamento. Cuidado com que (ou quem) contamos. Claro que isso também denuncia nossa limitação e possibilidade compreensível de errarmos em algum ponto que não corresponde com o melhor para nós. É fácil haver precipitação e acabarmos contando com algo ou alguém que não nos levarão a lugar algum. Muitos tomam decisões sem pesar as conseqüências. Precisamos tomar cuidado com essas coisas. É melhor darmos um tempo para fazermos as coisas com menores chances de erro.



Valorize a espiritualidade em toda a sua caminhada.

É importante perceber alguns detalhes. Para Noé, passar tanto tempo dentro de uma arca cheia de animais, mau cheiro, trabalho pesado, e escravo da situação era uma realidade existencial momentânea, não perene. Aquela era a sua realidade, mas ele sabia que poderia ser bem pior se estivesse do lado de fora. Muitas vezes o jardim do outro é mais belo do que o nosso. A vida do outro parece ser melhor do que a nossa. O outro parece ser bem mais próspero do que nós.

Noé sabe que apesar de tudo parecer tão difícil para ele, Deus lhe inspira através da percepção de sua presença. Noé se planeja, toma algumas decisões (corvo e pombas), mas lhe parece claro que Deus lhe fala no v.15: “Hora de sair dessa arca, Noé”. Em outras palavras: - “Noé, você se sente salvo dentro da arca, mas você precisa avançar para novos horizontes”. Ou inda poderia ter sido: “Noé, se você acha que lhe aconteceu um milagre por ter vencido o dilúvio, saiba que o milagre, antes de ser um benefício é um chamado à parceria e ao trabalho. Na verdade é uma responsabilidade”.

O v. 15 Noé é convidado a unir força comunitária familiar para se expandir.

O que está acontecendo com Noé? Ele está tendo a oportunidade de dar novo sentido à sua vida, agora fora da arca.

Um novo ano não é somente mais um ano, é também um chamado a sair da arca do comodismo. Isso se aplica à vida profissional, aos estudos, à vida com Deus em todos os níveis da existência.
O v. 20 diz que, logo que Noé sai da arca, constrói um altar. Aqui parece haver um belo sinal para quem deseja recomeçar bem.

O ideal é não esquecer Deus no caminho da vida. Apesar de isso não ser garantia que você vai acertar em tudo na vida, já que as decisões são sempre arriscadas, podemos conferir a beleza de poder contar com Deus em nossa caminhada. Noé foi alguém que não acertou em tudo, mas com certeza sinalizou uma vida com Deus.

Uma vida recomeçada em Deus não é uma vida livre de percalços, livre de dores, livre de possibilidade de erros... vida recomeçada em Deus significa que buscamos incorporar seus atributos de amor e justiça, para seguirmos um caminho de maior dignidade.

Noé e os seus sabiam que recomeçar não seria fácil. Essa tarefa não caberia a Deus, mas a eles.
Eles já tinham, assim como cada um de nós, a força e a capacidade necessárias para vencer cada etapa da vida.

Com isso ouso dizer que, se pra vencer 2010 houver a exigência de coragem, força e fé, 2010 já é nosso, porque Deus já nos recheou dessas graças.

Acredite – é possível vencermos os obstáculos desse novo ano.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

"O PASTOR CONTEMPLATIVO"


Acabei de ler “O Pastor Contemplativo” de Eugene Peterson.

Algumas pérolas do livro:

- Jesus, O Subversivo – Jesus foi o mestre da subversão. Até o fim, todos, inclusive os discípulos, o chamavam de rabi. O rabis eram importantes, mas não faziam nada acontecer. Nas ocasiões em que houve suspeitas de que talvez ele fosse mais do que o título apontava, Jesus tentou manter as coisas em segredo: “Nada diga a ninguém”.

A forma de discurso favorita de Jesus, a parábola, é subversiva. As parábolas parecem histórias absolutamente comuns, casuais, sobre solo e semente, refeições, moedas, ovelhas, bandidos e vítimas, fazendeiros e comerciantes. Elas são também inteiramente seculares: dentre as cerca de quarenta parábolas registradas nos evangelhos, só uma tem como ambiente a igreja e só duas mencionam o nome de Deus.

Quando as pessoas escutavam Jesus contar essas histórias, vivam imediatamente que não eram sobre Deus e que não continham nada que ameaçasse a suposta soberania delas. Então baixavam a guarda. Embora perplexas, iam indagando qual o significado das histórias, que ficavam gravadas em sua imaginação. Mais tarde, como uma bomba-relógio, elas explodiam em seus corações desprotegidos. Um abismo se abria a seus pés. Ele estivera falando sobre Deus; eles tinham sido invadidos.

Jesus continuamente lançava histórias estranhas ao longo das vidas normais (para – “ao longo de”; bole – “lançar”) e se retirava sem explicação ou apelos. Os ouvintes começavam, então, a ver as ligações, as conexões de vida, de eternidade. A própria falta de clareza, a diferença, eram estímulos para perceber a semelhança: semelhança com Deus, semelhança com a vida, semelhança com a eternidade. Mas a parábola não realizava o trabalho – ela fazia a imaginação do ouvinte trabalhar. As parábolas não são ilustrações que facilitam as coisas, pelo contrário, elas se não tivermos cuidado, acaba se tornando o exercício de nossa fé.

As parábolas atravessam subversivamente nossas defesas. Dentro da cidadela do “eu”, podemos esperar uma mudança de estratégia, um brandir súbito de baionetas que resulte num golpe contra o palácio. Mas isso não acontece. Nossa integridade é respeitada e preservada. Deus não impõe sua realidade de fora para dentro; ele faz crescer flores e frutos de dentro para fora. A verdade de Deus não é uma invasão alienígena, mas um romance amoroso em que detalhes comuns de nossa vida são tratados como sementes cultivadas para nossa concepção, crescimento e maturidade no Reino.

As parábolas confiam em nossa imaginação, ou seja, em nossa fé. Elas não nos arrebatam paternalmente para uma sala de aula onde as coisas são explicadas e diagramadas. Não nos colocam em regimentos onde nos encontramos marchando a passo de ganso moral.

É difícil descobrir um detalhe sequer na história do evangelho que não fosse negligenciado na época (e ainda hoje) por ser improvável, desprezível, comum e considerado ilegal. Sob a superfície do convencional, porém, e por trás do cenário de probabilidades, cada um daqueles detalhes estava efetivamente inaugurando o Reino: gravidez ilegítima (como foi suposto), nascimento na manjedoura, silêncio em Nazaré, trabalho secular na Galiléia, curas no sábado, orações no Getsêmani, morte como criminoso, água batismal, pão e vinho. Subversão.

(Extraído de "O PASTOR CONTEMPLATIVO - Descobrindo significado em meio ao ativismo", um livro de Eugene H. Peterson. págs 40,41)