domingo, 1 de janeiro de 2017
ENTÃO É NATAL!
terça-feira, 7 de fevereiro de 2012
O servo e o soberano
terça-feira, 17 de janeiro de 2012
Percebendo Sua doce Presença
“Quantas pessoas virão com você?” – Alguém pergunta ao telefone.
“Só eu e Deus”. – Responde o rapaz certo de que não estaria só durante a caminhada.
A dedução de uma conversa como essa resulta em um misto de fé e fuga do medo de uma possível solidão.
Claro que eu creio na presença mística de Deus. Ela é real e independente da matéria. Aliás, essa presença é uma exposição divina e eterna.
Muitas pessoas conseguem sentir a satisfação da presença desse Ser divino. Algo parece sobressair-se ao sentimento de solidão. Algumas vezes essa satisfação é percebida, nos momentos de solitude. Nem preciso explicar sobre a diferença entre solidão e solitude, né? Se a solidão independe a quantidade de pessoas perto de mim, a solitude apenas exige minha vontade de ficar comigo mesmo. Esse tempo é uma porta sensível a essa presença. Os Salmos 42 e 43 parecem dizer isso. Trata-se de um encontro íntimo que nasce com o medo e o abatimento: “Por que estás abatida, ó minha alma? Espera em Deus”. Interessante que num encontro só o poeta articula um diálogo que explora seu interior ávido por socorro enquanto está propenso a uma entrega submissa à Presença até então imperceptível. “Espera em Deus”.
A fé satisfaz a carência do Ser, pois torna possível a sintonia com a doce Presença. Muitas vezes nos sentimos incompletos. Isso se dá porque somos seres gregários e, como é interessante vê que Deus, em sua sabedoria se harmoniza a fim de se dá a conhecer a partir do ser humano. Que quero dizer com isso, senão que essa Presença tantas vezes acontece, mas é imperceptível devido a nossa necessidade de perceber Deus de forma externa, isso é, fora de nós.
Penso que nos equivocamos quando nos fiamos de uma presença externa e, usando o termo da oração, cujo Pai está lá “no céu”. Essa compreensão demonstra a distância do nosso habitat e de nossa realidade. O fato do “Tu dos tus” (GOUVÊIA) que declara a necessidade do outro, não ofusca a realidade da imanência. O céu que parece tão distante quando lido à cor de uma interpretação geográfica perde esse peso à medida quando entendido de um céu cuja dimensão lembra mais uma freqüência invisível, mas real, uma dimensão diferenciada da percepção comum sensorial humana.
Quando penso na presença de Deus estou assimilando como certo o esforço de Deus que se dignifica em se dá a perceber e ao mesmo tempo a conhecer um pouco mais sobre esse mistério.
A encarnação parece dizer isso: 1) O verbo (Palavra) que se torna carne; 2) A carne (gente) concreta que exala glória; 3) Glória que se reflete com graça e verdade. Deus se faz presente, não como um ser divino que nos tira da realidade, mas que encara tal realidade.
Tive a oportunidade de ouvir de um teólogo poeta apaixonado pelo mistério da presença divina dizer: “Busquei Deus fora de mim e não o encontrei. Busquei Deus dentro de mim, mas foi em vão. Busquei Deus no próximo e nos encontramos os três”. Esse é o jeito de Deus de interagir conosco. Deus prefere andar com gente, como gente, e como gente se faz presente no meio da gente.
Facilmente encontramos na bíblia que “ninguém pode ver Deus”. Pois, nesta mesma bíblia podemos encontrar o ensino que é em Jesus que podemos ver Deus.
Mais do que identificar Jesus como Deus encarnado, posso deduzir que a única (ou melhor) maneira que Deus achou para entrar na freqüência humana foi em Jesus, ou seja, se “hominizando” (BOFF), assim é como ele se revela a nós e nos eleva nessa revelação. Quando Deus quis ser melhor conhecido pelo homem se tornou gente, para que a gente toda se envolvesse nesse ministério de que Deus continua sendo assumido por pessoas que se tornam pequenos cristos, filhos e filhas de Deus. Desse modo a voz de Deus é ouvida através da voz humana, as mãos de Deus são estendidas quando pessoas se dispõem, e o Seu coração se envolve quando nossos corações amam o alvo de Seu amor. Quem sabe não é esse mesmo o sentido dos textos que nos incitam à hospitalidade, já que os antigos receberam anjos pensando receberem pessoas, e por que não dizer pessoas como se fossem anjos!?
Isso também exige de nós maior atenção, já que ao assumirmos a ação do Filho de Deus como filhos e filhas de Deus e do Cristo como cristãos, estamos também assumindo o dever de lutarmos por um mundo melhor, e ainda, garantindo a encarnação de Deus e de seu Cristo numa presença transformadora. Além de percebê-lo no outro, no encarnado com sua imago dei (imagem de Deus). Assim sua Presença é real em cada cuidado ao próximo, cada visita ao necessitado, cada ombro amigo, cada mão estendida. Uma sacada interessante que li em Harold Kushner foi em perceber Deus em toda boa e sincera ação humana. Desse modo, Deus, não somente está encarnado no outro como também soma força de existência que supera toda ansiedade. Sim, é possível lutar por um mundo melhor com a doce presença do Pai que sonha com sua família unida, crescida e transformada vivendo seu amor e mutualidade. É possível, pode sonhar, mas também se importe com essa realidade.
domingo, 25 de dezembro de 2011
Sem medo de atualizar conceitos
No tempo agitado em que vivemos somos propensos a nos enfastiar com qualquer coisa que pretenda perdurar de forma hegemônica. O tempo parece tão rápido que as respostas que temos ao nosso alcance parecem ultrapassadas, por isso buscamos mudança que atualizem essas demandas. Foi pensando em respostas atualizadas que elegemos o Lula, um homem de luta sindical, gregário e disposto a quebrar alguns protocolos mesmo no dia de sua posse. Depois foi a vez de Dilma ser eleita à presidência da Republica. Foi uma quebra de paradigma. Os EUA elegeram Obama, um negro com um nome indígena e, descendente de judeu, que ousou dizer que aquele patamar não tinha exclusividade branca.
Essa coisa de mudança, de quebra de paradigma, de ousar repensar parece mais lento na igreja. Não estou dizendo que não muda, mas que isso acontece de forma tão lenta que não consegue acompanhar no mesmo ritmo a história com suas demandas. Em grandes igrejas ainda se consegue sentar em bancos de madeira, outras ainda usam o ornamento dos sacerdotes veterotestamentários. Se essas coisas acontecem, talvez estejam refletindo certa morosidade, ou resistência numa possível releitura da bíblia no que tange à dogmática.
Acho que seria interessante se percebermos que diante de tanta mudança consequente do tempo, as perguntas mudaram, as questões se atualizaram enquanto as nossas respostas prontas e recheadas de chavões, pouco ou nada fazem de sentido correspondente às questões hodiernas.
Harold Kushner em seu livro “O Quanto É Preciso Ser Bom” lembra que quando Deus diz ao recém criado casal para não comer da Árvore do Bem e do Mal levando em consideração que “certamente” morreria, Deus não estaria dizendo necessariamente para não comer, mas para alertar que ao comer, a morte era o evento próprio conseqüente da mudança. O ser humano passaria para outro nível; sairia da ambiência do jardim para se expandir para outros níveis de desenvolvimento. Seria como quem sai da fase infantil para a fase adolescente, e depois se tornar jovem, logo mais, adulto. Então a cada mudança de fase houve uma atualização, ou seja a morte da fase anterior. Isso não acontece como processo negativo, mas como necessário. Paulo, convertido ao “Caminho” cristão percebeu que o tempo passa, e, com ele acontece a mudança no comportamento humano. Ele disse: “Quando eu era uma criança, eu pensava como uma criança, andava como uma criança e agia como criança. Mas agora que já sou adulto devo deixar de lado as coisas de criança.” (1º Coríntios 13.11).
Quando leio a bíblia não a vejo como um manual absoluto de prática religiosa, mas como percepções e anotações próprias de quem, em sua época percebia Deus, a vida e as relações.
Quando veio Jesus, houve uma atualização de conceitos e maneira de encarar as Escrituras diante da realidade. Por muitas vezes Jesus deixou claro que os conceitos dos religiosos estavam desatualizados. Ele argumentava: “Como é que vocês lêem isso?”... “Eu, porém, leio assim e assim”. Outra pessoa que chama atenção para a possibilidade de atualização da leitura bíblica em consonância ao nosso tempo foi Rob Bell em seu ótimo livro “Repintando a Igreja: uma visão contemporânea”, quando fala da nossa capacidade em “ligar e desligar”. Ele diz: “Precisamos continuar reformando a maneira de definir a fé cristã, a maneira de vivê-la e explicá-la”.
A sacada dessa proposta de leitura bíblica não deve nos fazer temerosos de estarmos menosprezando a bíblia, pois ela se atualiza durante a cada pagina e a cada livro. Por outro lado fazemos valer a proposta de uma igreja sempre disposta a reformas, ou melhor, a atualizações. Quem sabe, para os mais ousados seria como preferir ser uma “metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo”.
domingo, 26 de dezembro de 2010
PORQUE FIZ AS PAZES COM PAPAI NOEL

(Texto originalmente de Hermes Fernandes no seu blog: http://www.hermesfernandes.com/2010/12/porque-fiz-as-pazes-com-o-papai-noel.html)
Acabo de chegar de uma cantata numa igreja hispana em Deltona, Florida. Devo admitir que aprecio muito a atmosfera natalina. Gosto de ver as casas enfeitadas, os shoppings lotados, o corre-corre, a mesa farta, a troca de presentes, e até… o Papai Noel. Isso mesmo que você acabou de ler. Sou fã do bom velhinho. Tive minhas desavenças com ele anos atrás, pois julgava que estava usurpando o lugar de Cristo. De um tempo pra cá, fiz as pazes com o velho Noel. Antes que alguém me esconjure, deixe-me explicar.
Gosto de ver as casas enfeitadas, porque nesta época do ano elas se tornam mais aconchegantes. Os olhos da criançada brilham enquanto vêem a mãe enfeitando a árvore com penduricalhos e pisca-pisca. Quem não tem uma boa lembrança da infância quando chega este período do ano? Aqui nos Estados Unidos dá pra gente saber quem é cristão ou não pela maneira como a casa é decorada para o Natal. Geralmente, enchem-nas de pisca-piscas ao redor da casa, luzes coloridas, presépios, bonecos de neve, veados e alces, trenós, etc. Quando uma casa não é enfeitada, presume-se que ali more uma família judia, ou hinduísta, ou de qualquer outro credo, ou mesmo, sem credo. As casas iluminadas contagiam a vizinhança de um clima de celebração. Aqui em casa reunimos os filhos para ajudar na decoração. Esta semana, enquanto eu e Tânia armávamos o pinheiro de natal, lembrei-me de que foi o grande reformador Martinho Lutero quem começou esta tradição. As bolas representavam o fruto do Espírito Santo. O pinheiro foi escolhido porque é a única árvore a sobreviver à estação do inverno nos países onde ele é mais rigoroso sem perder a folhagem.
Por que gosto de ver os shoppings lotados? Não seria isso um culto ao consumismo? Que tal deixarmos um pouco o radicalismo de lado? Primeiro, por conta da explosão de vendas, a indústria e o comércio podem empregar mais gente. A economia do país melhora. E quanto à motivação que leva multidões às compras? Não seria a generosidade, uma vez que a maioria vai aos shoppings para comprar presentes? Não seria isso inspirado no exemplo dos magos que ofertaram ao menino Jesus os seus tesouros? Mesmo que gaste parte do sermão natalino pregando contra o espírito consumista predominante nesta época, gosta de receber presentes ao término o culto. Em vez de criticar quem gaste parte de seu orçamento com lembrancinhas, por que não incentivar que pelo menos uma parte dos presentes seja dada aos mais necessitados? Você sabia que é nesta época que as crianças que vivem em orfanatos recebem mais visitas e presentes? O Natal consegue despertar o melhor que há nos homens.
Gosto de mesas fartas. Alguém aí prefere ver famílias que distribuem seus filhos entre casas de vizinhos e parentes, ou simplesmente vão dormir mais cedo por não terem condição de montar uma mesa com as iguarias natalinas? Não confunda isso com glutonaria! Em vez de criticar, líderes poderiam incentivar os fiéis a não desperdiçarem comida, distribuindo para os moradores de rua no dia seguinte. Toneladas de alimento vão pro lixo um dia depois do natal. Isso é que deveria ser condenado.
E quanto ao Papai Noel? Quer saber por que fiz as pazes com ele? Porque cheguei à conclusão de que não será uma figura imaginária que ameaçará a supremacia de Cristo no Natal. Já houve quem até satanizasse o velinho. Uma igreja na Inglaterra chegou a dizer que o seu nome em inglês seria um anagrama do nome "Satan". Isso porque seu nome em inglês é Santa Claus, devido à tradição que o associa a São Nicolau. Na mente fértil desta turma, Santa, como geralmente é chamado pela criançada, seria na verdade Satan, bastando trocar a letra “n” de lugar. # Peloamordedeus! Imagina se o meu Jesus ficaria enciumado por causa de um personagem fictício, que no imaginário popular representa generosidade! Por que não usar a própria figura do Papai Noel para anunciar a Cristo às crianças? Seria muito mais produtivo do que simplesmente demonizá-lo. Imagine alguém fantasiado de Noel numa comunidade carente, com o saco cheio de presentes pra criançada, de repente, antes de distribuí-lo, ele anuncia que o verdadeiro presente de Natal é Jesus, dado por Deus aos homens para que tenham vida eterna.
Cristo jamais foi ameaçado por personagem algum. No Natal há lugar para os magos do Oriente, para os pastores de Belém, para o anjo Gabriel, e pra tantos outros personagens bíblicos, inclusive o malévolo rei Herodes. Noel entra de penetra, mas é bem-vindo. Apesar de ser associado a Nicolau, um cristão primitivo que prezava as crianças, tornou-se num ícone natalino através de uma campanha da Coca-cola nos anos 30. Antes disso, ninguém o reconheceria vestido com aquela roupa vermelha, botas pretas, saco de brinquedos e trenó.
Dito isso, desejo a todos os meus leitores um Natal repleto de alegria e contentamento no Espírito. E que os cristãos não sejam vistos como estraga-prazeres, e sim como aqueles que têm motivo extra pra festejar.
terça-feira, 24 de agosto de 2010
LIÇÕES DO ENCONTRO DE JESUS COM A MULHER SAMARITANA (João 4)

Grande texto aquele narrado no evangelho de João capítulo quatro que fala do encontro de Jesus com uma “mulher samaritana”, né? Fico pensando no quanto, assim como aquela mulher, sofremos nossos dilemas espirituais e como é possível sermos restaurados por Jesus.
Há quem diga que o poço do encontro ficava nas redondezas da cidade de Sicar (em Samaria), e o horário do meio dia não era conveniente para alguém ir buscar água, isso demonstra que aquela mulher estava com sérios problemas de ordem pessoal e social. Quem sabe, seria por causa de seu histórico de haver passado por cinco relacionamentos e, pior, o atual era socialmente condenável! É chato, mas muitas pessoas vivem os mesmos dilemas. São pessoas que são estereotipadas pelo currículo de desencontros. Muita gente não consegue manter um relacionamento e acaba se percebendo e sendo apontada como descartável. Imagine essa situação no primeiro século de nossa era. Pois é, pior é que, não muito diferente daquele tempo, nosso machismo ainda impera e muitas mulheres sofrem a pecha do preconceito quando o relacionamento não dá certo. Esse preconceito e silente culpabilidade nutrem no comportamento das mulheres um azedume desmedido que grita como fuga esquivante na possibilidade de ser ferida novamente. “Como tu, sendo judeu, me pede água?”.
Ela não consegue ver uma pessoa do sexo masculino sedento, mas, quem sabe, mais um a se aproveitar de sua situação fragilizada e em plena solidão do lugar. Mas, que bom que ali estava o (um) verdadeiro filho de Deus que não se aproveitou do ambiente facilitador para um flerte, antes viu uma possibilidade de contribuir com sua cura de alma. Esse comportamento de Jesus em contribuir para uma nova percepção de vida deve ser também o nosso comportamento – produzir vida e possibilidade de renovo nas pessoas que percebemos como alvo da misericórdia divina.
Sim, por que será que Jesus se refere a “água viva”?
Jesus está certo de que aquela mulher precisa de ajuda. A mulher busca a água (do poço) numa percepção diferente da dele. Ele precisa de água pra matar a sede física, e ela pra resolver seu problema interior (espiritual). Perceba que quando ele usa a expressão “água viva” ela reage fazendo apologia a possível força mística da água do poço. Numa paráfrase poderia ser assim: “O senhor quer dizer que tem água mais poderosa do que essa? O senhor sabe quem cavou esse poço e quem bebeu dessa água? Foi o pai Jacó, o patriarca da aliança”. Ao que Jesus replica: “Olha minha cara senhora, note que com todo esse poder místico, você continua com problema relacional. A verdade é que seu problema é outro e qualquer tentativa de busca nos termos místicos dessa água é apenas paliativa. Você já teve cinco tentativas frustradas e já está se envolvendo pela sexta vez e seu coração está indo de mal a pior”.
Igual aquela mulher nutrimos a mesma idéia de vincular a resposta aos nossos anseios mais profundos a um poder místico tangível. Esoterismo verificável no uso de sal grosso, velas, flores, altares, imagens, tapetes, óleo (de preferência com o rótulo de Israel), etc.
A mulher diz: “Tá bom, pois me dê dessa água e meu problema se resolve”. Veja que esse estágio nos lembra de como somos pobres em nossas percepções e como nossa ansiedade por solução nos torna frios diante de Deus. Queremos as mãos de Jesus, seus benefícios, mas ainda não percebemos que há uma busca mais nobre do que a possível força do braço de Deus – o seu coração relacional. Jesus se revela a mulher lhe mostrando o quanto quer se envolver em seus dilemas mal resolvidos. A situação pode sim encontrar resposta num encontro com Deus, mas a beleza está no processo de restauração que admite, inclusive não ter resposta concreta pra esses dilemas. O texto termina nada revelando sobre o desfecho de seu relacionamento, e nem precisa, pois, mais do que a resposta para um problema em qualquer segmento de nossa vida (conjugal, financeiro, etc.) o que nos incomoda é a ausência de quem nos sacia a sede da alma. Quando temos essa sede (que é confundida com questões físicas) somente Deus nos compreende e nos valoriza. Outra coisa, pessoa, objetos sagrados apenas nos são paliativos.
“Falando em sede espiritual, me diga de onde Deus responde orações, onde se pode adorá-lo ou onde se encontra Deus?” pergunta a mulher a Jesus. E, logo ele responde com maestria dizendo que Deus é Espírito e como tal que ser encontrado. O que me chama a atenção em Jesus é que ele, diferente de nós, ele não indica o caminho de uma religião particular onde Deus pode ser encontrado. Não houve proselitismo em sua conversa com a mulher. Ele deixa claro que como Deus é Espírito, não cabe em nenhuma religião. Não cabe em nenhuma cartilha religiosa. Deus não é propriedade privada de nenhuma religião ou igreja. De acordo com Jesus ele, Deus espera encontrar pessoas sinceras em sua fé, o percebendo nos encontros “casuais” com quem antes de levantar a bandeira de uma religião ou denominação, se é que precisa, levanta a proposta de restauração do ser como tal. Deus, segundo Jesus, procura encontrar pessoas que o adorem em espírito e em verdade. Talvez dizendo que devam viver sua fé com razão.
A mulher samaritana vê em Jesus um profeta, aliás, um vidente – alguém com capacidade de ver o que não está às claras. Era assim que os profetas antigos eram conhecidos. Outra coisa, aquela mulher entende que há um sonho utópico de que no final, tudo se resolve. Nos termos do texto ela diz: “Eu sei que o Messias (chamado o Cristo) virá”. Gente, por que nossa visão é tão embaçada e não conseguimos enxergar o que está diante de nós. Jesus disse tantas vezes e com tanta firmeza que o reino de Deus, também conhecido na bíblia como reino dos céus, ou na expressão joanina “vida eterna” já é uma verdade aqui e agora? Está claro que Jesus declarou àquela mulher que a vida, o sonho, a realidade da reconciliação não deve ser esperada, mas vivida no hoje, no já. Não digo que o futuro não aguarda grandes surpresas, mas vejo em Jesus a realidade do hoje. Então, não deixe pra viver a vida plena amanhã, mas hoje, senão você acaba se acostumando a viver o adiamento de seus sonhos.
Não dá pra ficar da mesma forma depois de tanta revelação. Algo lindo está acontecendo em seu interior. E como ela reage bem! Aquela mulher que praticamente recheada de medo da sociedade que lhe aponta o dedo, agora volta e sem temor fala sobre sua nova experiência. Numa paráfrase seria assim sua mensagem na cidade que havia sido o palco de seu sofrimento: “Venham, conheçam Jesus. Ele vê nosso sofrimento e nos dirige ao caminho de restauração”. E, como teve fruto essa sua experiência repassada na sua comunidade. Eles acabam conhecendo Jesus e declarando também haver tido experiências próprias com ele.
sábado, 31 de julho de 2010
NÃO APAGUE O EVANGELHO DA CRUZ

Tenho muita dificuldade de compartilhar de um culto onde a bandeira mercantilista está hasteada. Não suporto esse apelo que mais parece um canto de sereia de tão atraente que é nesse nosso veio capitalista cristão. Em vez de humildade, temperança, contrição, adoração... estamos ensinando técnicas de oração de conquista. Que tipo de gente estamos formando em nossa geração? Teríamos coragem de declarar que a igreja de hoje está gerando gente de fé? De onde veio nossa coragem de pinçar versículos que apóiam de forma inescrupulosa um triunfalismo esdrúxulo e desprovido de verdade no dia-a-dia de milhões de pessoas que se tornam presas fáceis pela avidez de seus corações ou por causa de suas carências. Infelizmente cresce o número de profetas que usam o nome de Deus para respaldar seus absurdos (pode ler abusos). Pior é que há um sufoco pelo apelo e prela pressão da necessidade de respostas que tragam luz para a demanda reivindicatória de resultados imediatistas.
O modelo da fé mercantilista em seus muitos apelos solidificados na necessidade das ovelhas carentes, que não se dão ao luxo de serem guiadas por pastores que, por sua vez não se dobram ao preço da amostra grátis da fé, promove uma ambiência satisfatória e persuasiva ao mesmo tempo paliativa, porquanto superficial e enganadora. Quem não gostaria de ganhar sete vezes mais depois de recitar uma oração mágica e fazer um depósito bancário em nome de uma instituição que garante inescrupulosamente, que coisas maravilhosas estão acontecendo? É difícil para muitos não caírem nesse apelo covarde. Isso nada tem a ver com fé. Isso nada tem a ver com Jesus de Nazaré, e nada tem a ver com o objetivo da igreja cristã.
Será que, por isso não acredito em Deus? Será que não tenho fé? Será que sou desviado? Será que fiquei cético? Claro que não. Claro que acredito no Deus da bíblia. Creio que esse Deus age como sempre agiu na história humana. Acredito num Deus que responde orações. Acredito na possibilidade de cura e na paz que enche o coração abatido. Creio na justiça para os oprimidos e providência divina que antes mesmo de cairmos na balela da luta para conquistar algo dEle, já houve um sentido de seu cuidado em relação a nós. Creio na palavra que diz que Ele já nos concedeu em sua graça toda a sorte de bênção. Somos abençoados até mesmo em nossas tribulações. Por isso há vocacionados nas mais diversas áreas do fazer humano (homo faber) que é capaz de ser parceiro de Deus na construção humana. Não consigo crer na busca materialista gananciosa e egocêntrica como prova de fé, nem na satisfação ufanista de ser filho e filha do Rei, quando por isso estou livre das surpresas da vida.
Tremo em pensar que a palavra de Deus, bem como termos gospels do tipo “Deus é fiel!”, “Deus é maior!”, sejam motivados não pelo apelo catafático de declaração positiva de quem Deus é, mas motivados apenas pelo sentimento de uso do próprio Deus em causa própria ou, pelo menos, como uma espécie de amuleto que determine a vitória e o poder de “amarrar o inimigo da minh’alma”.
A proposta cristã é a formação do caráter e da convicção de que Deus é vivo e verdadeiro em toda e qualquer situação. O problema de um cristão criado a partir do apelo gospel mercantilista é que este está fadado a viver o medo da perda pelo engodo da barganha com Deus.
Está na hora de percebermos que o cristão criado à sombra do evangelho da cruz, que a despeito das dificuldades, nunca se sente frustrado nem desapontado, pois sabe que seu Redentor vive e que por fim se levantará em sua história como resposta de restauração prometida àqueles que nascem à margem da cruz. O cristão deve saber que como filho ou filha de Deus, ainda que não haja lugar na hospedaria ele(a) não teme vir ao mundo, apesar dos conflitos, traições, abandonos, incompreensões, e, mesmo sabendo que seu próximo passo pode ser a cruz, até essa cruz pode ser palco de sua revelação de filho ou filha de Deus e, é aí onde o poder do Pai se aperfeiçoa em sua limitação humana.
Meu Credo

Creio no que existe e no que me faz existir;
Creio em um Deus que vai além da minha condição, e me ama antes mesmo de ser amado;
Creio e somente creio;
Creio, e arrisco devaneios de minha mente sincera e discreta ao se apresentar;
Creio em direções e contradições que a vida revela;
Creio no outro como agente de um Deus Uno e Trino. Afinal eu sei todo ser humano. Pode ser um anjo[1];
Creio em mim e deixo de acreditar a cada erro;
Creio nos que acreditam em falhas;
Creio nas ações e reações do ser humano;
Creio no otimismo e o pratico com gentileza;
Creio que da solidão podemos encontrar certezas para viver a felicidade;
Creio nas condições de existência que eu mesmo criei;
Creio nos que professam verdades com humildade;
Creio no amor ao próximo como essência e existência do Cristianismo;
Creio em um Deus que dança. E ouso a descordar de Nietzsche[2];
Creio da dança como expressão do corporalidade;
Creio no ser mulher como expressão de sensualidade e amor;
Creio na sedução que fazemos e sofremos;
Creio e apenas creio na felicidade, que só é alcançada por aqueles que crêem nela;
Creio na vida e em sua infinitude. Afinal tenho valores e ações eternas;
Creio na eternidade, mas admito que a brevidade da vida me intriga a viver cada vão momento[3];
Creio no "Carpe diem"[4];
Creio nos amigos e em suas falha;
Creio na juventude e em sua eternidade expressa em fatos e ações;
Creio, e somente creio que a vida vale mais quando aprendemos a ser humanos;
Humanos que em demasia sofremos, choramos e morremos;
Creio nas altas gargalhadas como exorcista de uma alma ensanguentada pelo sofrimento;
Creio na verdade de ser mortal e ainda assim viver eternamente;
Creio tão somente creio que outros pensem diferente, que vivam diferente;
Creio na inspiração que tenho, e nas poesias que escrevo;
Creio na realidade das coisas que me rodeiam, e das que estão por ai;
Creio nas criaturas divinas e na condição de humanidade nos dada;
Creio no ser Humano como imagem de um Deus amoroso;
Creio na família e em sua essência de união;
Creio nos amores e desamores que me formam;
Creio do indizível, por seu mistério apropriado;
Creio em detalhes que as palavras não revelam;
Creio em verdades e mentiras que me revelam;
Creio e tão somente creio que viver é não ter vergonha de ser feliz [5], que meu credo não consiste em palavras e tradições, mas na existência preconizante que me transforma a cada dia.
[1] Trecho da música Téo e a Gaivota, de Marcelo Camelo.
[2] Fazendo menção da frase de Friedrich Nietzsche: “Eu somente acreditaria em um Deus que soubesse dançar”.
[3] Citando Vinícius de Moraes. Soneto na Fidelidade.
[4] Frase em latim que significa: aproveite o dia.
[5] Parafraseando Gonzaguinha em sua música, O que é, o que é?
OBS: Extraído do blog da jujuba: jujuba-pensoeescrevo.blogspot.com


